O oportunismo é freio da luta popular: a JPL e o combate a Bolsonaro

No 28º Congresso da UMES, sua força dirigente - a Juventude Pátria Livre - lança manifesto que propõe combater o fascismo no voto. Será que isso é suficiente, ou apenas uma posição oportunista e eleitoreira?

O oportunismo é freio da luta popular: a JPL e o combate a Bolsonaro

A UMES-SP (União Municipal dos Estudantes Secundaristas de São Paulo), dirigida pela JPL (Juventude Pátria Livre), lançou recentemente em seu jornal uma matéria intitulada pelas palavras de ordem do 28º Congresso da entidade: “Democracia, Educação e Título na Mão”. O texto expressa uma posição política em voga atualmente, e sem se aprofundar, tenta indicar uma solução mágica para a derrubada de Bolsonaro: o “título na mão”, a saída eleitoral que vai resolver tudo no voto.

Mas será essa a saída? Não foi essa democracia do voto, defendida pela juventude do Partido Pátria Livre, que permitiu que Bolsonaro fosse eleito e promovesse todo o estrago realizado nos últimos quase quatro anos?; que assassinou Genivaldo?; que, mesmo nos períodos petistas, duplicou a população carcerária do país? A defesa abstrata por uma democracia, que tenta nos remeter aos tempos antes do bolsonarismo, esconde que foi a própria conciliação de classes dessa democracia que o gerou. A política de desmobilizar a classe trabalhadora e tentar servir os interesses de duas classes opostas “pela via eleitoral” eventualmente se esgota. E quando isso acontece, a democracia liberal defendida por esses setores mostra a quem verdadeiramente serve: a burguesia. E foi assim que as reformas, o aumento da violência policial, os ataques à educação foram feitos a partir dessa democracia.

O bolsonarismo não é apenas a figura de Bolsonaro na presidência. É um projeto da classe dominante que, com o agravamento das crises mundiais e precisando manter seus lucros, articulou uma série de medidas anti-populares, como o Teto de Gastos e a Reforma Trabalhista. Para garantir as medidas, que geram cada vez mais revolta na população, foi preciso articular um golpe contra Dilma e jogar o Brasil em uma crise política e econômica, dando uma guinada rumo ao fascismo. Mas as raízes do problema estavam lá, na democracia burguesa, e a desmobilização da classe trabalho a impediu de reagir e garantir melhores condições para sua sobrevivência. O resultado é o cenário catastrófico de subemprego e fome que o Brasil se encontra.

Seguindo a mesma lógica, a chapa Lula-Alckmin tenta se eleger com um discurso de resgate à essa democracia: aos tempos de PT e PSDB, da conciliação de classes, e acenando para a defesa dos interesses da burguesia. O ex-presidente Lula, desde seus primeiros indícios de que concorreria à presidência, se mostrou cada vez mais contido na defesa de pautas que são do interesse da população, além de ter como seu Vice uma figura que sempre atacou a educação, promoveu a privatização e lutou contra os direitos dos trabalhadores em sua carreira política no PSDB, partido responsável por desmontar a educação e saúde pública no estado de São Paulo, além de ter longo histórico de utilização da repressão policial contra manifestantes em geral.

E é para aí que se direciona a tática típica dos oportunistas: colocar todo o peso da luta sobre o voto, o que além de despolitizar, desmobiliza todos aqueles que tentam lutar. Em vez de promover a articulação da população para fortalecer a pressão em prol da classe trabalhadora, escolhem esvaziar atos e pedir que todos os incomodados com a atual situação direcionem suas forças para “conseguir votos”. Acontece que, independentemente de quem estiver no cargo da presidência da república, ele serve para garantir os interesses da classe dominante, para garantir o lucro da burguesia, e quando o cenário econômico não permite “conciliar demais” as classes, esses serão os interesses atendidos. É apenas a partir da luta constante por uma nova sociedade, pelo socialismo e pelo poder popular, que é possível garantir que a classe trabalhadora será ouvida. É ocupando escolas, fazendo greves e mobilizações que será possível combater o avanço do neoliberalismo.

Esses setores do social-liberalismo têm esse caráter fundamental: abaixam as bandeiras mais radicais enquanto a classe trabalhadora avança na sua radicalização, optando por uma guinada reformista, negando as opções revolucionárias essenciais para a derrubada do fascismo. Mas essa postura reformista oferece apenas soluções temporárias e frágeis, o que fica nítido quando analisamos os períodos petistas, em que medidas que melhoraram as condições de vida da classe trabalhadora foram acompanhadas de desmobilização e posteriormente, quando se tornaram insustentáveis com os interesses da burguesia, foram revertidas e a exploração dos trabalhadores aprofundada.

Uma entidade representante dos estudantes e que luta pela educação defender esse projeto é um contrassenso. Nos últimos tempos, as escolas sofreram muito com o avanço do fascismo e do neoliberalismo, com ataques e contrarreformas que cortaram verbas, diminuíram o número de professores e precarizaram o ensino público. O novo ensino médio e o novotec, que foram aprovados e continuam vigentes, são exemplos disso. Essas medidas são o cúmulo da mercantilização do ensino. Essas medidas sobrecarregam cada vez mais os estudantes enquanto mecanizam o ensino, diminuindo a carga horária de disciplinas de humanidades e aumentando a exploração dos professores que trabalham muito mais, recebendo menos e com menos direitos.

Quando essas contrarreformas foram aprovadas, onde estavam a JPL e o campo democrático-popular (composto por setores do PSOL, PT e PCdoB) para mobilizar os estudantes e impedir sua aprovação? Justamente, não estiveram lá, cumprindo a tarefa de convocar os estudantes para a luta. Nas mobilizações de 2021, que tiveram um importante papel de levar as pessoas às ruas depois de quase dois anos de pandemia, o campo não ajudou a compor de forma massiva os atos e, em vários momentos, ainda tentaram desmobilizá-los, como no caso do 07 de Setembro de 2021, data histórica em que a esquerda se manifesta no Grito dos Excluídos. E mais uma vez esse ano, o próprio Lula se pronunciou para desmobilizar a manifestação, sugerindo que não devemos medir forças ou “cair nas provocações” bolsonaristas, com receio de que isso prejudique o processo eleitoral. Enquanto isso, os comunistas estiveram e estarão sempre com a classe trabalhadora, lutando contra o avanço do fascismo e do neoliberalismo e pela queda imediata do Bolsonaro

É nesse momento que os comunistas não abaixam suas bandeiras, não conciliam classes. E não deixam de pautar o fundamental para a classe trabalhadora e para a soberania nacional, como a estatização das empresas estratégicas, a diminuição da jornada de trabalho e a escola popular, projetos essenciais para que a burguesia brasileira nunca cederá sem luta. Os comunistas entendem que é só a organização dos trabalhadores nas ruas, escolas, no trabalho e nos bairros pode garantir boas condições de vida para o povo.

Contra os projetos eleitoreiros, a escola popular que propomos e construímos com o MEP (Movimento por uma Escola Popular), visa transformar a escola em um ambiente verdadeiramente educacional, que sirva aos interesses dos trabalhadores, forme seres humanos, seja universal e entenda, de fato, os problemas da sociedade, e a partir dessa compreensão desenvolva o pensamento crítico dos estudantes. A luta pela escola popular é uma luta constante e de muita mobilização, mas necessária para construir uma nova sociedade sem miséria e exploração. Não existe solução mágica para o fascismo - devemos ir à luta!