Empresas roubam o futebol dos torcedores na Libertadores da América

A dominância do futebol brasileiro na Libertadores da América nos últimos anos evidencia as relações econômicas do continente.

Empresas roubam o futebol dos torcedores na Libertadores da América

No dia 27 de maio, a Conmebol sorteou o chaveamento para as oitavas de final da Copa Libertadores da América. De 16 times, 6 eram brasileiros, 6 argentinos, 2 paraguaios, 1 equatoriano e 1 colombiano, como se pode ver pela lista: Palmeiras, Atlético-MG, Corinthians, Athletico-PR, Flamengo, Fortaleza, Estudiantes, Boca Juniors, Vélez, River Plate, Colón, Talleres, Cerro Porteño, Libertad, Emelec e Tolima. Já no dia 19 de julho, após os jogos das oitavas, aconteceu o sorteio das quartas de final, com os seguintes confrontos para o mês de agosto: 1- Athletico x Estudiantes; 2 - Atlético-MG x Palmeiras; 3 - Corinthians x Flamengo; 4 - Vélez Sarsfield x Talleres. Dos 8 times, 5 são brasileiros (apenas o Fortaleza caiu nas oitavas) e 3 são argentinos. Cabe ainda ressaltar, dos 5 times brasileiros, 2 são paulistas, 1 carioca, 1 mineiro e 1 paranaense.

A visível superioridade brasileira nesta temporada é anunciada cotidianamente nas imprensas futebolísticas argentina, paraguaia e colombiana: os times brasileiros possuem “mucha plata” e “tienen jugadores de la Premier League”. Um brasileiro foi questionado, logo após a vitória nos penalties do Corinthians em cima do Boca Juniors em pleno La Bombonera, por uma emissora argentina a respeito do jogo. O torcedor respondeu em português mudando o assunto e caçoando: “parece que o Boca começou a construir o estádio, mas faltou dinheiro para terminar”, referindo-se a arquibancada lateral íngreme do estádio, de configuração diferente das demais arquibancadas. Parece que é o dinheiro dos clubes brasileiros que vem consolidando a superioridade na Libertadores e que os próprios torcedores identificam isso. Os indicativos não enganam, ainda que a Argentina some 25 títulos e o Brasil some 21, o país já possui o maior número de times campeões do torneio, somando 10 contra 8 times argentinos. A superioridade do Brasil se confirma quando analisamos as últimas finais, de 2010 até 2021 foram 12, das quais em 8 os brasileiros saíram vitoriosos, 3 foram os argentinos e apenas 1 time colombiano foi campeão. Um número alto para um torneio que historicamente foi dominado pelos argentinos.

Todo torcedor brasileiro sabe que seus clubes passaram a dar importância para a Libertadores nos últimos anos do século XX, os campeonatos nacionais e até os regionais eram considerados mais importantes. Mas definitivamente a importância que a Libertadores tem para os brasileiros hoje não explica a “superioridade” dos times brasileiros . O que vemos no futebol é um retrato das relações econômicas desiguais entre os países do continente. O Brasil se industrializou antes que a maioria dos países da América Latina e manteve certa dinamização industrial dirigida pelo Estado por mais tempo que países como México e Argentina que também se industrializaram no mesmo período. Esse “pioneirismo” permitiu à burguesia brasileira uma pequena margem para explorar seus “vizinhos”, enquanto estava fazendo o jogo das burguesias europeias e estadunidense. Não sendo uma burguesia central, com a força da burguesia japonesa ou da burguesia inglesa por exemplo, não podia ousar transferir capitais para o outro lado do mundo, fomentar golpes, invadir ou guerrear tão longe. Os capitalistas brasileiros subordinados ao imperialismo dos grandes centros, tentam reproduzir com o Paraguai, Bolívia e Argentina a mesma exploração, mas só conseguem de maneira rebaixada, com menor intensidade: um subimperialismo.

Um indicativo de que a relação entre os times de futebol são retratos das relações econômicas entre os países pode ser visto na distribuição desigual dos patrocínios. Temos o Palmeiras que recebe da Crefisa (patrocinador master) 81 milhões de reais anualmente, enquanto o Flamengo recebe do Banco de Brasília 35 milhões, já o Corinthians por exemplo, recebe anualmente 17 milhões da Neo Química. Palmeiras e Flamengo são os times na América do Sul que mais recebem com patrocínios, seguidos por  Boca Juniors que recebia de seu patrocínio master cerca de 8 milhões de dólares anualmente, enquanto o River Plate recebe cerca de 4 milhões de dólares da Turkish Airlines. Isso sem falar dos direitos de TV, imagem e vendas de ingressos e camisas. No caso de clubes argentinos como o Boca, a arrecadação é maior com venda de ingressos e com os “sócio-torcedores”. O dinheiro exorbitante, os altos salários, as vendas caras, os escândalos de corrupção na Conmebol e CBF não são a toa. Quem assistiu futebol nas décadas de 1970, 1980 e até 1990 consegue ver com nitidez a diferença entre o futebol dinheiro e o futebol paixão, entre o “futebol esporte” e o “futebol empresa”.

Sócio-torcedor, “name rights”, construção de arenas hipermodernas com camarotes glamourosos e a consequente alta no preço dos ingressos  correspondem ao mesmo movimento de ampliação da arrecadação dos clubes, que foram deixando de ser clubes de lazer e esporte para os trabalhadores e suas famílias, para a comunidade na vila ou no bairro, para se transformarem em empresas, muitas vezes privadas, que visam apenas o lucro. Os torcedores, aqueles que movem o clube e muitas vezes os jogadores, os ídolos, os aposentados já não importam, tudo é visto como mercadoria. “Com o que mais se pode lucrar?” e “o que mais se pode vender?” viraram mantras das diretorias e agora também proprietários dos times de futebol.

Outro indicativo é a configuração do futebol brasileiro. Muitos jogadores argentinos, uruguaios, peruanos, colombianos são comprados para jogar em clubes do país, enquanto o caso contrário é pouco visto. Não são muitos os brasileiros que atuam no futebol argentino ou no futebol colombiano, paraguaio, uruguaio, boliviano, etc. O que mais se aproxima em termos de transformação dos clubes em empresas e de rivalidade com o mercado brasileiro é o caso do futebol mexicano, contemporaneamente é o que mais atrai jogadores brasileiros no continente, excetuando o próprio Brasil.

Bancos, empresas automotoras, grandes conglomerados do comércio e mais recentemente podemos ver também a inserção do agronegócio no futebol. O Corinthians obteve dinheiro do agronegócio (da empresa Taunsa) para trazer o jogador Paulinho. Fato que marcou a primeira vez que o clube paulista, criado por operários, iniciou diálogo com esse setor que é um dos principais responsáveis pela fome, pela morte de indígenas do Brasil, pelo subdesenvolvimento. Esse tipo de “repatriação de jogadores”, virou estratégia no clube desde Ronaldo “Fênomeno”. Não se pode esquecer, por exemplo, a repatriação de Alexandre Pato em 2013, que custou cerca de 60 milhões aos cofres do clube. Naquela altura foi a mais cara contratação da história do time. Outros exemplos de “repatriação” brotaram nesses últimos anos no futebol latinoamericano, também como estratégia para vender camisetas: Carlos Tevez para o Boca Juniors, William para o próprio Corinthians, David Luiz e Diego para o Flamengo, Zé Roberto para o Palmeiras, Daniel Alves para o São Paulo, Hulk e Diego Costa para o Atlético Mineiro, entre outros tantos que jogaram ou atualmente jogam a Copa Libertadores. Constantemente essas contratações são apontadas como centrais para a melhoria na qualidade dos campeonatos de futebol no Brasil e no continente. Os índices de dribles, aumento no número de gols por partida e por temporada, a velocidade do jogo entre outras coisas, são atribuídas ao movimento de repatriação de jogadores e de modificação do estilo brasileiro ou do estilo argentino, por exemplo, para o estilo europeu de futebol. Constantemente se afirma que os times brasileiros devem passar a jogar como times europeus.

Mas, esses dois movimentos são apenas sintomas que se somam às características assimiladas pelos clubes para se transformarem em empresas capitalistas. O primeiro movimento, a "repatriação'', é a tentativa de trazer para o futebol nacional, jogadores nacionais que fizeram carreira na Europa. O torcedor então se pergunta, por que é necessário que o meu time compre um jogador que já foi dele, que surgiu na base, no terrão? O movimento é claro: os times da América Latina, não apenas os brasileiros, se especializaram em formar jogadores para vender ao mercado Europeu. Os jogadores saem dos clubes cada vez mais cedo em direção a um Barcelona ou a um Manchester por preços que saltam aos olhos das diretorias e torcedores. No auge de suas carreiras chegam a valer 10 vezes mais do que o preço pelo qual foram comprados. E no fim da carreira são comprados novamente, “repatriados”, por preços altos e salários caros que endividam os clubes latinoamericanos. As relações econômicas entre por exemplo o Brasil e a Europa, sendo desiguais, só permitem que os clubes tragam os jogadores em fim de carreira, por vezes velhos, próximos da aposentadoria. Isso ainda é suficiente para melhorar a qualidade das ligas nacionais. Prova da escassez causada pela especialização em vender jogadores.

O segundo movimento, essa constante tentativa de mudar os estilos de jogo dos clubes latinoamericanos, os campeonatos, as táticas e até o calendário para as formas europeias de futebol, pode ser visto nitidamente com a intensa procura e contratação de técnicos portugueses no Brasil. Caso de Corinthians, Palmeiras, Flamengo, Santos, pelos quais passaram ou permanecem técnicos portugueses. Corinthians, Palmeiras e Flamengo possuem ainda diretorias pioneiras na transformação do futebol e moldagem ao estilo europeu. Essa adequação serve para quê? O torcedor se pergunta. Adequar o calendário brasileiro ao europeu servirá para facilitar as vendas (trocas desiguais) nas janelas de transferências. Aquele moleque bom da base poderá ser vendido mais rápido e mais fácil. E adequar o estilo de jogo brasileiro ao estilo de jogo europeu, facilitará a venda de jogadores que chegarão já adaptados em times como Liverpool e Real Madrid. Esses times terão menos custos com treinamento, condicionamento físico, além de ter reduzido o tempo de espera para que o jogador-mercadoria dê lucro.

As quartas de final da Libertadores da América não apenas evidenciam o domínio dos times brasileiros, mas também evidenciam a característica dependente e periférica das nossas economias. Eduardo Galeano em seu livro, Veias Abertas da América Latina, diz que a América Latina se especializou desde cedo em perder, se especializou em ser sugada pelos europeus desde os tempos coloniais e assim ficou até hoje aprimorando suas funções. Os jogadores de futebol são como a soja, o minério de ferro, o petróleo, o café, o ouro ou a prata. São mercadorias primárias, vendidas a preço de banana, sugadas e valorizadas na Europa. Os mercados internos de Brasil e Argentina, por exemplo, ficam cada vez piores, com menos qualidade, justamente porque nossos países se especializaram em produzir mercadorias baratas (jogadores) para o mercado externo. A Copa Libertadores da América, que tem esse nome em homenagem a Simon Bolívar, José Artigas, San Martín, José Sucre, líderes que libertaram o continente ao menos da dominação política de países como Portugal e Espanha,  só poderia na verdade se chamar Copa Predadores da América.

Os torcedores esperam um dia o futebol voltar a ter a emoção das piadas, das comemorações provocadoras, do ingresso barato, das oportunidades para os meninos e meninas da base, sem os salários exorbitantes e com paixão. O futebol arte, o futebol esporte e não o futebol empresa, o verdadeiro futebol arte.